Mercados de predição bloqueados tinham mais de 2,1 mi de acessos

Atualizado: 25 Abr 2026
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Lucas Arraz

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Os 27 domínios ligados a mercados de predição bloqueados pelo governo federal acumulavam 2,18 milhões de acessos no primeiro trimestre de 2026, segundo levantamento do Aposta Legal com base em dados de tráfego digital.

O volume mostra que, mesmo operando em uma zona cinzenta regulatória, esse tipo de plataforma como Polymarket e Kalshi já havia conquistado presença relevante entre usuários brasileiros antes da ofensiva do governo.

O bloqueio foi anunciado em 24 de abril de 2026, quando autoridades federais determinaram a retirada do ar de sites considerados irregulares no país.

Segundo o entendimento oficial, parte dessas empresas oferecia contratos financeiros baseados em eventos futuros que, na prática, poderiam se enquadrar como produtos semelhantes a apostas, sem autorização dos órgãos competentes no Brasil.

Você sabia?

Em resumo, os mercados preditivos são uma forma diferente de apostar, baseada em probabilidades e na opinião coletiva do mercado.

Entre os exemplos citados estão mercados sobre quem vencerá uma eleição, qual time ganhará uma partida de futebol, se o Bitcoin ultrapassará determinado preço ou até se um candidato desistiu da disputa presidencial.

A Secretaria de Prêmios e Aposta (SPA) afirma que, independentemente do nome usado pelas plataformas, a estrutura econômica é semelhante à aposta de quota fixa: o usuário coloca dinheiro em risco esperando prêmio futuro definido por odds/probabilidade.

Você sabia?

Além do Brasil outros países bloqueiam apostas em mercados de predição, como França, Portugal, Holanda, Argentina e Colômbia.

Polymarket e Kalshi dominam o Tráfego

A análise dos dados de acesso expõe uma hierarquia brutal entre as plataformas interditadas. As cinco maiores por tráfego respondem, juntas, por 92,2% do total de acessos, deixando as demais 22 plataformas disputando menos de 8% do volume.

No topo da lista está a Polymarket, com 1,46 milhão de acessos no período, o equivalente a quase dois terços de todo o tráfego mapeado.

Fundada em 2020 nos Estados Unidos, a plataforma tornou-se globalmente conhecida por sua atuação nas eleições americanas de 2024.

A Kalshi, sua principal concorrente direta, registrou 250 mil acessos e ficou em segundo lugar com 11,4% do total. A plataforma até iniciou sua entrada no Brasil por meio de uma parceria com a XP Investimentos.

Na sequência aparecem duas plataformas com perfil distinto. A Robinhood, historicamente voltada ao mercado acionário americano, somou 118 mil acessos, uma presença inesperada dado que a empresa nunca aceitou formalmente usuários brasileiros em seus produtos de corretagem.

Seu ingresso na lista de bloqueados está ligado ao lançamento dos chamados "event contracts", contratos de eventos que a empresa passou a oferecer nos Estados Unidos a partir de 2025. O IBKR ForecastTrader, produto da Interactive Brokers, completou o grupo dos mais acessados com 91,7 mil acessos, seguido pela veterana PredictIt com 96,3 mil.

Um terço dos bloqueios foi preventivo

Um dado que chama atenção na análise é que 10 das 27 plataformas bloqueadas registraram pouquíssimos acessos originados no Brasil no primeiro trimestre de 2026.

Entre elas estão nomes como OG, Fanatics Markets, Novig, Hedgehog Markets, PolySwipe, PRED Exchange, Ruckus Market e Stride.

A interdição dessas plataformas antes de qualquer presença mensurável no país revela uma mudança na estratégia regulatória brasileira: em vez de aguardar a consolidação de um produto proibido no mercado local, o governo optou por atuar de forma prospectiva, bloqueando domínios com base na natureza do serviço oferecido, independentemente do volume de usuários já atingido.

Esse tipo de intervenção preventiva é incomum no histórico regulatório das apostas no Brasil e sinaliza que o Ministério da Fazenda passou a monitorar ativamente o mercado internacional de contratos de evento, acompanhando lançamentos de produtos no exterior antes que ganhem penetração doméstica.

O que são os mercados de predição?

Os mercados de predição funcionam como bolsas em que os participantes compram e vendem contratos atrelados ao resultado de eventos futuros.

Se um contrato para a vitória de um determinado candidato em uma eleição é negociado a R$ 0,65, o mercado está implicitamente atribuindo 65% de probabilidade àquele desfecho. Quem detém o contrato recebe R$ 1,00 se o evento ocorrer; zero, se não ocorrer.

Defensores do modelo argumentam que essas plataformas são superiores às pesquisas de opinião na função de prever resultados, pois agregam incentivos financeiros reais à formação de expectativas.

O problema, para os reguladores brasileiros, é que essa arquitetura se assemelha funcionalmente às apostas de resultado fixo, categoria regulada pela legislação aprovada em 2023.

Oferecer apostas em eleições é explicitamente proibido pela lei brasileira, e pelo menos cinco das plataformas bloqueadas incluíam esse tipo de contrato entre seus produtos.

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