Desenrola 2.0 proíbe apostas em bets por 12 meses

Atualizado: 1 Jun 2026
1580467910557.jpg

Lucas Arraz

Sobre o autor

Jornalista e analista de dados, atua na produção de conteúdos e estudos sobre o mercado de apostas e sua regulamentação no Brasil.Leia mais
Analista de dados
ricardo gugel

Ricardo Gugel

Sobre o autor

Analiso cada conteúdo com atenção para garantir informações claras, confiáveis e de qualidade.Leia mais
Editor

Os trabalhadores que aderirem ao Desenrola Brasil 2.0, novo programa de renegociação de dívidas do governo federal, ficarão proibidos de apostar em bets por 12 meses a partir da data de celebração do novo contrato.

A regra vale para todos os participantes do programa, e não apenas para quem usar o saldo de até 20% do FGTS para quitar débitos. A restrição pode atingir até 27 milhões de brasileiros, segundo estimativas do Ministério da Fazenda.

A medida foi formalizada pela Instrução Normativa SPA/MF nº 3/2026 e pela Portaria nº 1.237, publicadas em edição extra do Diário Oficial da União. As operadoras licenciadas têm prazo de 10 dias para implementar os mecanismos de verificação e bloqueio.

Em nota, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmou apoiar o objetivo de proteção financeira do programa, mas alertou que a eficácia da medida depende, fundamentalmente, de um combate rigoroso ao mercado ilegal de apostas, que hoje opera sem fiscalização rigorosa.

Como funcionará o bloqueio na prática?

Pelo desenho da norma, as instituições financeiras enviarão ao Ministério da Fazenda a lista de CPFs dos inscritos no Desenrola 2.0. O Banco do Brasil atuará como centralizador das informações.

Esses dados serão integrados ao Sigap, o sistema federal de controle de apostas operado pela Fazenda em parceria com a Serpro. O mesmo banco de dados já contém, desde outubro de 2024, um módulo de pessoas impedidas, como beneficiários do Bolsa Família.

A partir da identificação, as bets licenciadas terão de bloquear automaticamente o cadastro e o uso da plataforma por esses usuários durante 12 meses.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático antes do lançamento do programa: "O que não pode é renegociar a dívida e continuar perdendo dinheiro apostando em bet".

Bloqueio pode fortalecer o mercado ilegal

Na nota divulgada ao mercado, o IBJR ressaltou que restrições ao setor regulamentado podem estimular a migração de usuários para plataformas clandestinas, que já movimentam cerca de R$ 40 bilhões por ano no Brasil e operam sem qualquer mecanismo de proteção ao consumidor.

A entidade lembrou também que, segundo dados da LCA Consultoria, em 2025 as apostas feitas em plataformas licenciadas representaram apenas 0,46% do consumo das famílias brasileiras, uma participação pequena dentro do orçamento doméstico.

"O principal fator de endividamento no orçamento dos brasileiros segue sendo o alto custo do crédito", reforçou o instituto.

O IBJR aponta ainda que o combate ao mercado ilegal é o passo mais urgente para evitar que operadores sem licença, muitas vezes associados ao crime organizado, aproveitem janelas de restrição para atrair o público vulnerável.

A preocupação é acentuada por dois fatores. O primeiro é a proximidade da Copa do Mundo, período de natural aumento no volume de apostas esportivas. O segundo é o risco de perda de R$ 10,8 bilhões em arrecadação para o país, caso o consumo migre para a clandestinidade.

A entidade defende uma atuação coordenada entre governo e setor privado, combinando educação financeira, fortalecimento do jogo responsável e uma ofensiva estratégica contra sites clandestinos.

O que isso significa para o apostador

Se você pretende aderir ao Desenrola 2.0, é importante entender os efeitos práticos da medida:

  • Bloqueio automático: a partir da renegociação, o CPF do beneficiário será impedido de se cadastrar ou apostar em qualquer bet licenciada pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA);
  • Duração de 12 meses: o prazo começa a contar a partir da celebração do novo contrato de renegociação;
  • Vale para todos os inscritos: independentemente de o participante ter usado o FGTS ou apenas outras modalidades do programa;
  • Não atinge bets ilegais: como operadoras clandestinas não estão integradas ao Sigap, o bloqueio simplesmente não chega até elas, e é justamente esse ponto que preocupa o IBJR e parte do setor.

Por que apostar em uma bet ilegal é arriscado?

Quem busca driblar a restrição em plataformas clandestinas se expõe a uma série de riscos que não existem no ambiente regulado:

  • Ausência de fiscalização: a operadora não responde a nenhum órgão brasileiro, e não há garantia de pagamento de prêmios
  • Sem proteção contra vício: bets ilegais não oferecem ferramentas obrigatórias como autoexclusão, limites de gasto e canais de atendimento para ludopatia
  • Risco de fraude e exposição de dados: muitas dessas plataformas usam disfarces para se infiltrar em lojas de aplicativos e capturar CPF, dados bancários e cartões
  • Vínculos com crime organizado: relatórios da Receita Federal, da Polícia Federal e do próprio Ministério da Fazenda já apontaram conexões entre operadoras clandestinas e esquemas de lavagem de dinheiro
  • Zero contribuição ao país: enquanto bets legais pagam outorga de R$ 30 milhões, impostos e contribuem para saúde, educação e esporte, as ilegais não geram nenhum retorno social

Como identificar uma bet legal no Brasil

Para quem continuará apostando, vale a regra prática:

  1. Verifique se o site termina em ".bet.br", domínio obrigatório para todas as bets licenciadas;
  2. Cheque o desenvolvedor do app na loja oficial, que deve usar o nome da empresa autorizada;
  3. Desconfie de endossos de celebridades sem confirmação nas redes oficiais da pessoa;
  4. Observe a classificação etária, que precisa ser de 18 anos no caso de apps de apostas.