Polymarket atacava Betano enquanto operava ilegalmente no Brasil

Atualizado: 10 Mai 2026
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Lucas Arraz

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Enquanto operava sem qualquer autorização no Brasil, a plataforma Polymarket veiculava anúncios pagos no Instagram com a frase "as casas de apostas esportivas estão mortas", atacando diretamente bets legalizadas como Bet365 e Betano.

As peças publicitárias, identificadas como patrocinadas, aparecem documentadas na nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, o documento que fundamentou o bloqueio das 27 plataformas de mercado de predição no país, incluindo a própria Polymarket e Kalshi.

A publicidade era veiculada por dois perfis distintos no Instagram: @polymarket e @polymarketsports. Em um dos anúncios, a plataforma apresentava uma tabela comparando seus supostos pagamentos com os das concorrentes reguladas, sugerindo retornos superiores.

A peça era exibida para seguidores do perfil da UFC Brasil, que conta com 572 mil seguidores, indicando uma estratégia direcionada ao público brasileiro de apostas esportivas. Em outro anúncio, o perfil @polymarketsports utilizava a frase "pare de ser enganado", posicionando diretamente às casas de apostas reguladas como adversárias.

Ambas as peças incluíam, em letras pequenas, o aviso de que "a negociação não está disponível em todas as jurisdições" e orientavam o usuário a consultar a regulamentação local antes de operar, o que indica que a própria plataforma tinha ciência da ilegalidade de sua operação em determinados mercados.

Você sabia?

Mesmo sem poder oferecer apostas no Brasil, Polymarket dizia que pagava mais prêmios que casas de apostas legais

Por que Polymarket foi bloqueada no Brasil?

Na nota técnica, a SPA utilizou as capturas de tela dos anúncios como evidência de que a Polymarket não operava como uma ferramenta financeira neutra, mas como um produto de apostas em disputa direta pelo mesmo consumidor das bets reguladas.

O argumento das plataformas de mercado de predição era de que seus serviços se assemelhavam a instrumentos financeiros, e não a apostas.

A publicidade agressiva contra os sportsbooks derrubava essa tese na prática. Se o produto fosse um derivativo financeiro, não competiria com a Betano.

A SPA concluiu que a linguagem e as estratégias de comunicação das plataformas as aproximavam, de forma explícita, dos serviços ofertados por operadores de apostas, evidenciando convergência econômica e disputa pelo mesmo público.

Operação ilegal com alcance de 1,46 milhão de acessos

O investimento em publicidade paga no Brasil não era esforço pequeno. Segundo levantamento do Aposta Legal, a Polymarket registrou 1,46 milhão de acessos originados no Brasil no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 67% de todo o tráfego das 27 plataformas posteriormente bloqueadas.

O número é ainda mais expressivo considerando que a plataforma nunca lançou um produto localizado em português ou operou em reais. A tração foi construída organicamente, amplificada pelo engajamento nas eleições americanas de 2024, e acelerada por publicidade paga direcionada ao público brasileiro de apostas.

Brasil foi um dos últimos a agir contra mercados de predição

A Polymarket já havia sido bloqueada em mais de 34 países antes da ação brasileira, segundo a própria plataforma.

Na Europa, países como França, Portugal, Alemanha, Itália, Bélgica e Holanda já haviam proibido a operação. Na América do Sul, Argentina e Colômbia agiram antes do Brasil.

Na França, a Autoridade Nacional de Jogos obteve da Polymarket a interrupção voluntária dos serviços.

Em Portugal, após descumprimento da ordem regulatória, as operadoras de telecomunicações foram acionadas para bloquear o acesso ao site, modelo semelhante ao adotado pela Anatel no Brasil.

O bloqueio brasileiro, anunciado em 24 de abril de 2026 pelos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Miriam Belchior (Casa Civil), se apoiou na Resolução nº 5.298 do Conselho Monetário Nacional, que veda contratos derivativos atrelados a eventos de entretenimento, política ou esportes, e no Parecer nº 1.323/2026 da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, que reconheceu a competência da SPA para regular e fiscalizar esse tipo de atividade.

Sem proteções para o usuário brasileiro

Além da publicidade irregular, a nota técnica aponta que a Polymarket operava no Brasil sem nenhum dos mecanismos de proteção ao consumidor exigidos das casas de apostas autorizadas: sem limite de gasto, sem ferramenta de autoexclusão, sem restrição de acesso para menores de 18 anos e sem política de jogo responsável equivalente à exigida pela Portaria SPA/MF nº 1.231/2024.

As bets legalizadas no Brasil são obrigadas a manter políticas de prevenção ao jogo patológico, procedimentos de identificação de usuários e integração a organismos de monitoramento de integridade esportiva.

A Polymarket, enquanto captava usuários brasileiros com publicidade paga, não cumpria nenhuma dessas exigências.