+18 Ministério da Fazenda adverte: aposta não é investimento.

Bets unem direita e esquerda nos planos de governo

Atualizado: 4 Set 2026
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Lucas Arraz

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Nas eleições de 2026, as apostas online são o único tema que atravessa todo o espectro político nos planos de governo protocolados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Sete dos treze candidatos à Presidência citam o setor em seus planos: Ronaldo Caiado (PSD), Flávio Bolsonaro (PL), Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata), Lula (PT), Hertz Dias (PSTU) e Edmilson Costa (PCB).

São 23 menções válidas ao setor em 816 páginas dos documentos enviados com planos que os candidatos almejam para o Brasil, caso eleitos.

A convergência, porém, para no diagnóstico. Na hora de propor, os planos se dividem entre candidatos que propõem regular com mais rigor, proibir o uso de dinheiro público em apostas e até confiscar os ativos das empresas.

O que pensa cada candidato sobre bets?

Confira o que cada candidato demonstrou pensar sobre as bets no Brasil:

  • Ronaldo Caiado (PSD) é quem mais escreve sobre o assunto: oito menções, seis delas com proposta de ação. O plano abre uma seção inteira no eixo de segurança pública chamada "Enfrentar os jogos e as apostas on-line como ameaça econômica, social e de saúde pública". Promete "regulamentar e endurecer as regras, com máximo rigor", descrevendo a atividade como "inexistente no país até 2018 e hoje associada à lavagem de dinheiro, uso de contas de terceiros, manipulação de identidades, fraudes, evasão fiscal e riscos à integridade esportiva". Propõe ainda proibir publicidade em veículos de massa e redes sociais, criar um teto contra o superendividamento, tratar a ludopatia como questão de saúde pública — citando a classificação da CID-11 — e priorizar a repressão a plataformas ilegais com "trilha de inteligência financeira dedicada ao setor".
  • Flávio Bolsonaro (PL) dedica ao tema uma entrada própria no sumário e concentra as propostas na proteção da renda familiar. Diz que "as apostas online consomem o dinheiro do mês antes mesmo de ele chegar em casa, corroendo a renda da população mais vulnerável" e promete proibir o uso de recursos de programas sociais em apostas, "porque dinheiro destinado a pôr comida na mesa não pode escoar para a casa de apostas", além de campanhas de conscientização.
  • Lula (PT) trata o tema em duas frentes, ambas de continuidade: ampliar "os profissionais e as estratégias voltadas às pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas", na seção de saúde, e manter "os mecanismos de controle de gastos excessivos em apostas on-line", na de proteção ao consumidor. É o único a se referir ao que já existe sem propor mudança de rota.
  • Hertz Dias (PSTU) e Edmilson Costa (PCB) vão ao extremo oposto do gradiente regulatório. O PSTU propõe "proibição das Bets, expropriação de seu capital e de seus proprietários e sua reversão a um fundo público de saúde para o tratamento de ludopatia, com a proibição aos bancos de realizarem transações financeiras a essas empresas". O PCB é mais curto e igualmente direto: "proibição das BETs com a expropriação dos seus ativos".
  • Samara Martins (UP) e Wilson Grassi (Democrata) citam o setor sem apresentar proposta. A UP descreve "milhões de pessoas endividadas e viciadas nas chamadas bets, um crime contra a economia popular que fica impune dado o imenso poder do capital", e acusa as casas de apostas de promover "um verdadeiro assalto do salário do trabalhador prometendo dinheiro fácil". O plano do Democrata menciona apostas em dois contextos técnicos: "casa de apostas" aparece numa lista de fachadas usadas para lavagem de dinheiro, e a PEC 18/2025 é citada por redirecionar a arrecadação das apostas de quota fixa para fundos de segurança pública, "receita que hoje também abastece o esporte".

O que falam candidatos que não tem propostas para o mercado?

Seis candidatos não escrevem a palavra "aposta" uma única vez: Augusto Cury (Avante), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão), Pablo Marçal (PRTB), Clariana Barão (DC) e Rui Costa Pimenta (PCO).

Dois desses silêncios contrastam com o que os próprios candidatos dizem em campanha. O prazo para protocolar os pedidos de registro, com os planos de governo anexados, terminou em 15 de agosto.

Três dias depois, num encontro com pessoas que enfrentam vício em apostas e familiares de vítimas, em São Paulo, Romeu Zema afirmou: "depois de escutar aqui esses relatos, eu já decidi que o 1º ato meu como presidente vai ser acabar com as bets. É uma praga, é um câncer que nós temos hoje dentro do Brasil".

No dia 24, num almoço na região da Faria Lima, Renan Santos disse que "as bets serão destruídas no meu governo, não vai ter bet, não vai ter esse crédito consignado fácil comendo o salário das pessoas".

Nenhum dos dois escreveu uma linha sobre apostas no documento que entregou ao tribunal. As promessas mais categóricas da campanha sobre o setor estão fora dos planos de governo.

Nenhum candidato se debruçou sobre a Lei das Apostas

Nenhum dos treze planos menciona a Lei 14.790/2023, o marco que regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil, nem pelo nome nem pelo número. A busca por "14.790", "Lei das Bets", "SIGAP" e "iGaming" não retorna nenhuma ocorrência em 816 páginas.

A ausência é relevante porque o mercado regulado completou um ano em janeiro de 2026 e está em plena expansão: as empresas faturaram R$ 12,2 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026, o dobro do mesmo período de 2025, e recolheram R$ 4,5 bilhões em impostos.

Setor de apostas rebate prescindenciáveis

Os sete planos que tratam do tema descrevem o mesmo problema — endividamento familiar, vício, dinheiro que evapora antes de chegar em casa — e chegam a soluções incompatíveis entre si.

O setor contesta a premissa que sustenta as propostas mais duras. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que reúne operadoras licenciadas no país, argumenta que proibir o mercado regulado não faz as apostas desaparecerem: "a proibição pode levar os apostadores a recorrerem a plataformas ilegais, inclusive operadas a partir do exterior, ampliando os riscos e os prejuízos associados ao mercado não regulado".

O instituto cita pesquisa do Instituto Locomotiva segundo a qual 61% dos apostadores migrariam para o mercado ilegal, e oito em cada dez não sabem distinguir uma plataforma regulamentada de uma clandestina.

Um estudo da LCA Consultores encomendado pelo próprio IBJR, divulgado em 13 de agosto, estima que a fatia do mercado ilegal caiu de 41% a 51% em junho de 2025 para 38% a 44% no primeiro semestre de 2026 — queda que o presidente executivo do instituto, Carlos Lima, atribui à regulamentação e às ações do governo federal contra plataformas clandestinas. São dados produzidos a pedido do setor regulado e com margem de estimativa ampla, mas apontam para uma variável que quase nenhum plano enfrenta: o que fazer com o mercado que já opera fora da lei.

Só dois documentos tocam no assunto, por ângulos distintos: Caiado promete "repressão das plataformas ilegais de jogos e apostas", com bloqueio administrativo e judicial e interrupção de fluxos financeiros; Grassi lista "casa de apostas" entre as fachadas usadas para lavagem de dinheiro. Nos outros cinco, a distinção entre mercado legal e clandestino não aparece.