Argentina virou alvo da internet na reta final da Copa do Mundo 2026
Mesmo com a euforia da torcida argentina chegando à reta final da Copa do Mundo 2026, 6 em cada 10 menções opinativas à Seleção Argentina nas redes sociais são negativas. A poucos dias da decisão, o nome do país aparece mais associado a arbitragem, FIFA, suposto favorecimento e episódios de racismo do que a futebol, e a desconfiança cresce a cada rodada.
O levantamento do Aposta Legal, feito na plataforma Stilingue, analisou 580.072 publicações que mencionam a Argentina entre 11 de abril e 12 de julho. Os números contam a história dessa virada de percepção.
O sentimento virou: 47% das menções são negativas
Da conversa total sobre a seleção argentina no período, 47,3% das publicações têm sentimento negativo, contra 33,7% positivas e 19% neutras. Ou seja: mesmo com a equipe vencendo em campo, quase metade de tudo o que se fala sobre a Argentina na internet é crítica.
O recorte fica ainda mais expressivo quando isolamos apenas as publicações com posicionamento claro. Excluindo os comentários neutros, 58,4% da conversa opinativa sobre a Argentina é negativa, quase 6 em cada 10 comentários.
A trajetória das menções: crescimento de 10x e um pico fora da curva
Em abril, a Argentina gerava em média 2,1 mil menções por dia. Em junho, com o início do mata-mata, a média saltou para 8,5 mil (crescimento de 304%). Em julho, chegou a 20,4 mil menções diárias, quase 10 vezes o volume do início do monitoramento.
Os picos ao longo do torneio acompanham os jogos da seleção: 16 e 17 de junho (cerca de 21 mil menções/dia), 22 de junho (25,6 mil) e 3 de julho (24,7 mil).
Mas nada se compara ao dia 7 de julho, quando a conversa explodiu para 76.405 menções em 24 horas: um salto de +697% em relação ao dia anterior e um volume 36 vezes maior que a média de abril. É o maior pico de todo o monitoramento.
O detalhe: o pico não veio no dia da vitória sobre o Egito, e sim na esteira dela, impulsionado não pela celebração, mas pela controvérsia. Descubra o que está movendo a conversa:
- A virada contra o Egito: a Argentina venceu o Egito por 3 a 2, de virada, e garantiu vaga nas quartas de final. A atuação de Messi e a resiliência do time renderam a fatia positiva da conversa, os 33,7% que ainda celebram a seleção.
- A crise de arbitragem: a vitória, porém, foi rapidamente engolida pela polêmica. A Federação Egípcia apresentou queixas formais à FIFA contra decisões de arbitragem que teriam impactado o resultado. Nas redes, o episódio mais compartilhado foi o do técnico do Egito, que sinalizou o protocolo antirracismo ao denunciar atos racistas de torcedores argentinos e recebeu um cartão amarelo pela reclamação. Uma única publicação sobre o caso ultrapassou 30 mil compartilhamentos, com comentários como "é vergonhoso um árbitro da Copa do Mundo fazer uma coisa dessas".
- As acusações de racismo: as denúncias de racismo envolvendo torcedores argentinos durante a partida contra o Egito se tornaram um dos principais motores da negatividade. Para boa parte da audiência, a punição ao técnico egípcio, e não aos torcedores denunciados, inverteu os papéis de vítima e agressor, e o caso passou a ser citado como símbolo da impunidade da torcida argentina no torneio.
- A narrativa do favorecimento: o quarto pilar é o que mais cresce: a percepção de que FIFA e Gianni Infantino estariam favorecendo a Argentina. O conteúdo símbolo dessa narrativa é uma montagem de um árbitro abrindo o uniforme da FIFA e revelando a camisa 10 argentina por baixo, com a legenda "A FIFA apitando o jogo da Argentina": mais de 30 mil curtidas e 89,5 mil compartilhamentos em três dias.
O comportamento dos argentinos nas redes sociais também pesa contra a seleção. Provocações a torcidas rivais, deboche após as vitórias contestadas e respostas agressivas a quem questiona a arbitragem aparecem com frequência nas menções negativas, alimentando a antipatia inclusive entre torcedores que não têm time na disputa. Até na conversa em português o clima azedou: entre os comentários mais curtidos, brasileiros criticam outros brasileiros por torcerem pela Argentina.
A desconfiança abriu espaço até para desinformação. Circula com força uma publicação afirmando que o FBI estaria investigando a Federação Argentina por fraude durante a Copa, conteúdo de página de fofoca, sem confirmação oficial, mas que acumulou 9,3 mil comentários e 8,2 mil compartilhamentos, com respostas como "Tomara que anulem todos os jogos! Tudo comprado" (quase 20 mil curtidas). Verdadeiro ou não, o post mostra que a audiência está predisposta a acreditar na tese do jogo armado.
Nas casas de apostas, a desconfiança também aparece
O desgaste da imagem argentina coincide com um movimento curioso no mercado de apostas. Entre 1º de junho e 1º de julho, a probabilidade implícita de título da Argentina triplicou, de 7% para 21%, acompanhando o avanço da seleção no torneio. Mas, a partir daí, o movimento travou: caiu para 19% em 6 de julho e para 18% em 10 de julho, mesmo com a equipe seguindo viva na disputa e justamente no período das maiores polêmicas de arbitragem e do pico recorde de menções negativas.
A França fez o caminho oposto. Saiu de 17% no início de junho para 40% em 10 de julho e hoje tem mais que o dobro da probabilidade atribuída à Argentina, consolidando-se como a grande favorita ao título.
A leitura possível: enquanto o mercado premiou o futebol francês, a cotação argentina parou de subir no exato momento em que a narrativa de favorecimento e as controvérsias ganharam força. Para quem aposta, uma seleção cercada de queixas formais na FIFA e sob suspeita pública carrega um risco que vai além das quatro linhas.
A conversa sobre a Argentina não é mais sobre futebol, é sobre legitimidade. A cada rodada, a vitória em campo alimenta a derrota na narrativa: quanto mais a seleção avança, mais crescem a percepção de favorecimento e o desgaste com o comportamento de sua torcida, dentro e fora dos estádios. Com a final se aproximando, a tendência é que o volume (e a negatividade) bata novos recordes. Se a Argentina levantar a taça, o título já nasce contestado nas redes.







