Apostas sobre a saúde do papa voltaram à tona em 2025
As apostas sobre a saúde do Papa Francisco voltaram ao centro das atenções globais no início de 2025, impulsionadas por sua internação e pelas especulações em diversas plataformas.
Apesar de proibidas no Brasil, esse tipo de aposta mobilizou usuários de países como Reino Unido, Estados Unidos e Irlanda — refletindo uma tradição que remonta ao século XVI, quando até rumores de conclaves movimentavam somas em Roma.
Apostar na saúde do Papa, ou em qualquer evento semelhante, é considerada prática ilegal no Brasil
Entre 14 de fevereiro e 23 de março, enquanto o Papa Francisco enfrentava complicações de saúde, as especulações (e apostas) sobre sua sucessão se intensificaram em escala global.
Na plataforma Polymarket, apostas foram abertas com perguntas como “Teremos um novo Papa em 2025?”, incentivando usuários a especularem financeiramente sobre a possibilidade de uma transição no papado.
Apostas como “O novo Papa será eleito antes de julho?” e “De qual continente virá o sucessor?” também foram abertas tentado prever o que aconteceria em um eventual conclave que não se concretizou.

44% dos jogadores apostaram que haverá um novo Papa em 2025
No auge da internação do líder, 57% apostavam que haveria troca de papa ainda em 2025, e 14% acreditavam que isso aconteceria antes de julho.
Durante a crise respiratória enfrentada pelo Papa Francisco em 28 de fevereiro — quando precisou de ventilação mecânica não invasiva —, as buscas por termos como “odds próximo papa”, que questionavam sobre chances de ganhos em apostas sobre quem seria o próximo pontífice, atingiram seu pico histórico no Google nos últimos 12 meses.
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Entre os países com maior volume de buscas por esse tipo de aposta estavam Bahamas, Camboja, Irlanda, Finlândia, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Filipinas e Itália — um reflexo do alcance global que a sucessão papal, mesmo sem data marcada, passou a ter em meio ao suspense sobre o estado de saúde do pontífice.
Nenhum termo envolvendo a saúde do papa e apostas tiveram buscas relevantes no Brasil no período analisado.
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Fonte: Google Trends
Apostar sobre saúde do Papa é prática de 500 anos
Discutir a saúde do Papa Francisco não é novidade: ao longo da história, isso sempre gerou debates que misturam fé, política e até apostas.
O fenômeno, na verdade, está longe de ser inédito: há mais de 500 anos, apostas sobre quem seria o próximo papa movimentavam somas significativas em Roma e causavam dores de cabeça ao Vaticano.
Entre os séculos XVI e XVII, apostar na morte ou na eleição do pontífice era uma prática tão comum quanto controversa. Corretores, conhecidos como sensali, operavam na capital italiana como verdadeiros bookmakers, aceitando apostas sobre assuntos papais — de boatos sobre a saúde do pontífice a possíveis viagens do clero.
A prática era tão enraizada que até circulavam “informações privilegiadas” sobre o andamento dos conclaves, transformando a sucessão papal em um espetáculo especulativo.
Diante disso, a Igreja endureceu sua posição. Em 1591, o Papa Gregório XIV publicou a bula Cogit Nos, ameaçando com excomunhão quem ousasse apostar em questões ligadas ao papado.
A medida, apesar de drástica, surtiu efeito por um tempo: os mercados foram empurrados para a clandestinidade e os cardeais passaram a agir com mais discrição durante os conclaves.

Mas nem mesmo o risco de perder a salvação eterna foi suficiente para eliminar de vez o hábito. No século XX, com a perda de poder territorial dos Estados Papais e a crescente secularização da sociedade, as apostas voltaram à superfície.
Casas britânicas começaram a divulgar odds sobre quem seria o novo papa já nos anos 1970. Na eleição de João Paulo II, o então cardeal Karol Wojtyła sequer aparecia entre os favoritos.
Na era digital, as apostas migraram para o blockchain. A Polymarket, por exemplo, funciona com criptomoedas e opera fora da jurisdição de muitos países.
Especialistas alertam para os riscos. “Quando eventos políticos ou espirituais viram ativos financeiros, cria-se um incentivo perverso à desinformação”, afirma um pesquisador em ética que não quis se identificar. “A sucessão papal deveria ser um momento de reflexão, não de lucro especulativo", completou.
Sem uma polícia papal como nos tempos da Renascença, o Vaticano hoje conta apenas com sua autoridade moral.
A bula Cogit Nos, que proibia a prática, foi revogada oficialmente em 1918, mas o dilema continua atual: até que ponto se deve permitir que fé, política e apostas se misturem?