+18 Ministério da Fazenda adverte: aposta não é investimento.

Brasil proíbe bets e dá até 5 de outubro para apostador sacar saldo

Atualizado: 25 Set 2026
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Lucas Arraz

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O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) proibiu nesta sexta-feira (25) as apostas esportivas e os cassinos on-line no Brasil.

A medida provisória, anunciada em São Paulo, bloqueia de imediato novos depósitos nas plataformas e determina que sites e aplicativos saiam do ar a partir de 6 de outubro.

A decisão encerra, menos de dois anos após a abertura do mercado regulado, em janeiro de 2025, um setor que ganhou escala de consumo de massa.

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“"A partir de hoje não se pode colocar mais dinheiro nos sites de apostas do país. Os sites ficarão disponíveis para as pessoas, para os apostadores, fazerem o resgate do saldo remanescente até as 23h59 do dia 5 de outubro"”

Dario Durigan

Ministro da Fazenda,

Levantamento do Aposta Legal mostra que os sites das casas autorizadas somaram 15,5 bilhões de acessos de janeiro a agosto deste ano.

Só durante a Copa do Mundo, entre junho e julho, os apostadores receberam cerca de R$ 125 bilhões em prêmios, segundo estimativa do portal.

O Executivo também vai enviar ao Congresso um projeto de lei que transforma em crime a exploração, a operação e a divulgação de apostas, com penas de até seis anos de reclusão. A proibição integra um pacote de medidas contra o endividamento das famílias, segundo a equipe do presidente Lula.

Como fica o dinheiro do apostador

Quem tem saldo nas plataformas precisa fazer o saque até as 23h59 de 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno das eleições.

Depois desse prazo, a devolução passa a ser feita pelas instituições financeiras que operam as contas das bets, sem necessidade de pedido do apostador, segundo o governo.

Confira o calendário completo do bloqueio das bets no Brasil:

Data

O que acontece

Desde 25 de setembro

Contas das bets deixam de aceitar novos depósitos

Até 23h59 de 5 de outubro

Apostador pode sacar voluntariamente o saldo

A partir de 6 de outubro

Sites e aplicativos saem do ar

7 e 8 de outubro

Bets informam aos bancos os saldos de cada CPF

9 a 14 de outubro

Bancos fazem a devolução integral dos valores

A partir de 14 de outubro

Caixa intermedeia a devolução nos casos em que houver impedimento

Desde 25 de setembro

O que acontece

Contas das bets deixam de aceitar novos depósitos

Até 23h59 de 5 de outubro

O que acontece

Apostador pode sacar voluntariamente o saldo

A partir de 6 de outubro

O que acontece

Sites e aplicativos saem do ar

7 e 8 de outubro

O que acontece

Bets informam aos bancos os saldos de cada CPF

9 a 14 de outubro

O que acontece

Bancos fazem a devolução integral dos valores

A partir de 14 de outubro

O que acontece

Caixa intermedeia a devolução nos casos em que houver impedimento

O que vale já e o que depende do Congresso

A medida provisória tem força de lei desde a publicação, mas vale por 60 dias, prorrogáveis por mais 60. Para se tornar permanente, precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado dentro desse prazo.

As punições criminais ficaram de fora da MP porque a Constituição proíbe a edição de medidas provisórias sobre direito penal. Por isso, o governo optou por um projeto de lei, que ainda terá tramitação própria.

Segundo a minuta obtida pelo g1, explorar ou operar apostas de quota fixa, por qualquer meio, passará a ser crime com pena de quatro a seis anos de reclusão, além de multa.

A punição valeria mesmo para quem tiver autorização de autoridade estrangeira e seria aumentada em um terço quando a aposta envolver jogos virtuais, como os cassinos on-line do tipo "jogo do tigrinho".

O texto prevê reclusão de dois a quatro anos, além de multa, para quem:

  • Fizer publicidade ou marketing para incentivar apostas, recrutar apostadores ou lucrar com esse tipo de divulgação;
  • Fornecer ou vender listas de dados pessoais para direcionar anúncios de apostas, com agravantes quando envolverem histórico de perdas, transtorno do jogo diagnosticado ou informações de crianças e adolescentes;
  • Processar pagamentos de apostas sabendo de sua origem, ou desenvolver e distribuir plataformas e aplicativos de apostas.
Atenção!

A minuta exclui da tipificação conteúdos de natureza jornalística, informativa, educativa, acadêmica, científica ou crítica.

Acesso às bets estava caindo no Brasil

A proibição chega num momento de retração do setor. Segundo o Painel das Bets, monitoramento mensal do Aposta Legal, os sites das casas autorizadas receberam 1,39 bilhão de acessos em agosto, o equivalente a 44,7 milhões de visitas por dia.

O número é 15,6% menor que o de julho e 30,6% inferior ao de junho, mês em que a Copa do Mundo elevou a procura. Na comparação com agosto de 2025, quando o mercado regulado atingiu o pico da série, com 2,71 bilhões de acessos, a queda é de 48,9%.

No acumulado de janeiro a agosto, as plataformas somaram 15,5 bilhões de visitas, 8,8% a menos que no mesmo período do ano passado (17 bilhões). Em todo o ano de 2025, primeiro de funcionamento do mercado regulado, foram 26,8 bilhões de acessos.

A desaceleração começou ainda no ano passado. Depois do pico de agosto de 2025, o tráfego oscilou em setembro e outubro, recuou de novembro a fevereiro, ficou perto de 2,1 bilhões mensais entre março e maio e voltou a cair após a Copa.

Você sabia?

Os dados medem visitas aos sites, não o número de apostadores: uma mesma pessoa pode fazer várias visitas no mês, e o uso dentro dos aplicativos não entra na conta.

Mercado de bets ficou mais concentrado

A queda não atingiu todas as marcas da mesma forma, e o mercado terminou mais concentrado nas líderes. Em agosto, a Betano respondeu sozinha por 24,1% dos acessos às casas autorizadas, ante 17,2% um ano antes. Somadas, Betano, Superbet e Bet365 ficaram com 42,4% do tráfego, e as dez maiores marcas concentraram 64,9%.

Marca

Acessos em ago.2026 (milhões)

Participação (%)

Variação ante ago.2025 (%)

Betano

333,5

24,1

-28,7

Superbet

172,1

12,4

-23,6

Bet365

82,5

6,0

-41,1

Brazino777

69,9

5,0

+374,6

7Games

64,5

4,7

-75,7

Betano

Acessos em ago.2026 (milhões)

333,5

Participação (%)

24,1

Variação ante ago.2025 (%)

-28,7

Superbet

Acessos em ago.2026 (milhões)

172,1

Participação (%)

12,4

Variação ante ago.2025 (%)

-23,6

Bet365

Acessos em ago.2026 (milhões)

82,5

Participação (%)

6,0

Variação ante ago.2025 (%)

-41,1

Brazino777

Acessos em ago.2026 (milhões)

69,9

Participação (%)

5,0

Variação ante ago.2025 (%)

+374,6

7Games

Acessos em ago.2026 (milhões)

64,5

Participação (%)

4,7

Variação ante ago.2025 (%)

-75,7

Fonte: Painel das Bets/Aposta Legal

Entre as grandes, as perdas mais fortes em um ano foram da 7Games, que caiu da segunda para a quinta posição, e da Betnacional, com retração de 68%. A Brazino777 foi exceção e multiplicou por quase cinco o tráfego no período.

O acesso é quase todo feito pelo celular, que responde por 98,7% das visitas, segundo o recorte mais recente da base. Os homens somam 68,3% do público, e jovens de 18 a 24 anos representam 22,7%. Cada visita dura, em média, 12 minutos e 52 segundos.

Brasileiros apostaram mais de R$ 100 bilhões na Copa 2026

O impacto financeiro do setor fica mais visível no período da Copa do Mundo.

Estimativa do Aposta Legal, calculada a partir da receita das casas legalizadas, indica que os brasileiros apostaram R$ 133,4 bilhões em junho e julho, média de R$ 2,19 bilhões por dia.

O valor é 17,1% maior que o do mesmo bimestre de 2025 (R$ 113,9 bilhões).

Desse total, cerca de R$ 125,3 bilhões voltaram aos jogadores em prêmios, o que corresponde a 94% do volume apostado. A diferença, de R$ 8,08 bilhões, é a receita bruta das operadoras, conhecida pela sigla em inglês GGR.

Segundo o mesmo levantamento, o país tinha 15,2 milhões de apostadores no primeiro trimestre, o que equivale a um GGR médio de R$ 531 por apostador no bimestre.

Você sabia?

O volume apostado soma o mesmo dinheiro usado várias vezes: um prêmio reaplicado entra de novo na conta. Por isso, o número não equivale a dinheiro novo tirado do orçamento das famílias. O indicador mais próximo do que os apostadores efetivamente perderam é o GGR.

Arrecadação recorde e outorgas bilionárias

A proibição também interrompe uma fonte de receita crescente para a União. De janeiro a agosto, a Receita Federal arrecadou R$ 9,91 bilhões com apostas e jogos de azar, 69% a mais que no mesmo período de 2025 (R$ 5,86 bilhões).

O número inclui as loterias da Caixa, que seguem permitidas, e por isso não se refere apenas às bets.

Em oito meses, o valor já se aproxima do total de todo o ano passado, de R$ 9,95 bilhões. Agosto, porém, trouxe a primeira queda desde o Carnaval: foram R$ 1,16 bilhão, 20,5% menos que em julho, movimento que acompanha a retração de 15,6% no tráfego das casas medida pelo Aposta Legal no mesmo mês.

Além dos tributos, cada empresa pagou R$ 30 milhões de outorga para operar por cinco anos, com direito a até três marcas. As outorgas renderam cerca de R$ 2,5 bilhões ao governo, segundo o jornal Metrópoles. A lista de autorizadas acompanhada pelo Aposta Legal reúne 82 operadoras e 188 marcas.

Setor promete ir à Justiça

As empresas reagiram antes mesmo do anúncio. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) lançaram o manifesto "Proibir não é proteger", e operadoras falam em pedir na Justiça a devolução das outorgas pagas.

Presidente do IBJR, Carlos Lima afirmou ao Metrópoles que o governo ainda não explicou como os valores seriam restituídos caso as empresas fossem impedidas de operar.

O argumento central do setor é que a proibição empurra os apostadores para sites ilegais, sem controle de lavagem de dinheiro nem proteção ao consumidor. Em junho, o próprio Durigan havia manifestado o temor de que uma proibição fortalecesse o mercado clandestino, segundo o portal Yogonet.

Os dados do Aposta Legal ajudam a dimensionar esse risco. Nos 53 sites irregulares monitorados pelo portal, os acessos caíram de 57,5 milhões em março de 2024, antes da regulação, para 2 milhões em maio deste ano.

Desde então, voltaram a subir e chegaram a 4,7 milhões em agosto, volume ainda pequeno perto do mercado legal.

O fim das bets também atinge o futebol. Segundo o Yogonet, 14 dos 20 clubes da Série A têm patrocínio de casas de apostas, em contratos que superam R$ 1 bilhão, e o governo afirma que não haverá mais patrocínios do setor a partir de 6 de outubro.

Ofensiva na reta final da campanha

O anúncio ocorre a nove dias do primeiro turno, em que Lula disputa a reeleição, e depois de uma sequência de críticas do presidente ao setor. Na abertura da Assembleia Geral da ONU, nesta semana, ele disse que as plataformas transformam "vício em lucro" e estão "destruindo lares".

Em ato de campanha no Recife, também nesta sexta, Lula afirmou que "não é correto gastar o que não tem pra tentar ganhar o que não existe". "Nossa decisão vem a partir do efeito danoso que as bets geraram no Brasil", disse Durigan.

A medida tem respaldo na opinião pública. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg indica que 75% dos brasileiros apoiam a proibição das apostas on-line.