Maioria apoia proibir bets, mas resultado varia com a pergunta
A maioria dos brasileiros apoia proibir as casas de apostas em pesquisas com perguntas diretas sobre o tema. Os resultados aparecem em levantamentos de institutos diferentes e atravessam grupos políticos, mas o tamanho do apoio varia conforme a formulação da pergunta.
A diferença ganha relevância enquanto o governo discute uma medida provisória para restringir o setor. Em reportagem publicada em 21 de setembro, a CNN informou que o alcance ainda estava em avaliação: uma proibição geral ou uma restrição concentrada, inicialmente, nos cassinos on-line.
MP das bets: linha do tempo do debate
Da reunião com a sociedade civil às discussões sobre o alcance da proposta, veja os principais marcos de setembro de 2026. As informações abaixo distinguem declarações públicas, reportagens de bastidores e decisões ainda em estudo.
2026
Em reportagem publicada pela CNN, Durigan afirma que a arrecadação não justifica manter uma atividade caso ela prejudique a população. Segundo o veículo, o governo ainda avalia uma proibição geral ou uma restrição concentrada, inicialmente, nos cassinos on-line.
Fonte: CNN Brasil. Data da publicação; a reportagem não informa quando ocorreu a conversa com o ministro.
2026
Clubes e federações divulgam manifesto contra a possível medida e alegam risco de insolvência. Durigan afirma que nenhuma decisão foi tomada. Fontes ouvidas pela Reuters indicam um desenho que preservaria apostas esportivas e patrocínios, com proibição dos cassinos on-line.
2026
Reportagem do UOL revela que o governo prepara uma medida provisória para proibir apostas e jogos on-line. Sem texto apresentado, o alcance da proposta ainda é incerto. A possibilidade de uma proibição ampla mobiliza clubes e empresas do setor.
2026
Lula ouve a sociedade civil
Em reunião no Planalto, Lula discute os impactos das apostas com representantes da sociedade civil e sinaliza uma decisão sobre o setor. O presidente afirma que pretende considerar os prejuízos relatados pela população antes de definir novas medidas.
Fonte: Estadão/UOL.
O que as pesquisas dizem sobre proibir bets
Quando a alternativa é sim ou não, o apoio à proibição é amplo. O AtlasIntel registrou 70% a favor em abril de 2026. O Datafolha havia apurado 65% em novembro de 2024. Em julho de 2026, levantamento do estúdio Clarice com Estratégia Latina e Ideia, com 2.008 entrevistados, encontrou 56%.
Quando a pergunta oferece caminhos, a proibição total deixa de reunir maioria absoluta. Na CNT/MDA divulgada em 14 de abril, 38,4% escolheram proibir as empresas, 22,1% pediram fiscalização mais rígida, 9,8% queriam proibir a publicidade, 9,3% defenderam limite semanal de gasto e 7% preferiram manter como está.
A proibição permanece como a opção individual mais escolhida nesse levantamento. Fiscalização, veto à publicidade e limite de gasto somam 41,2%, mas representam propostas diferentes. A comparação entre pesquisas também não permite afirmar que as mesmas pessoas mudaram de posição.
As perguntas citadas não distinguem diretamente cassino on-line de aposta esportiva. Por isso, os resultados não medem o apoio ao desenho específico da MP em discussão.
Apoio a restrições atravessa grupos políticos
O apoio a restrições às apostas aparece em diferentes grupos políticos, embora os levantamentos tratem de medidas distintas.
Na Quaest divulgada em 13 de maio, com 2.004 entrevistados e margem de erro de dois pontos percentuais, 79% apoiaram proibir apostas para quem entrar no Desenrola 2.0. O apoio ia de 87% entre eleitores de esquerda que não votam em Lula a 68% entre bolsonaristas.
O levantamento de julho do estúdio Clarice com Estratégia Latina e Ideia encontrou apoio ao banimento entre 62% dos apoiadores de Lula e 56% dos bolsonaristas.
O debate também aparece nos planos de governo dos candidatos à Presidência, como mostrou levantamento do Aposta Legal.
Mulheres e idosos apoiam mais a proibição
O recorte de gênero se repete nas pesquisas. Em julho, 62% das mulheres e 50% dos homens aprovaram a proibição. No Datafolha de 2024, os percentuais eram de 68% e 61%, respectivamente.
A oposição ao banimento também varia conforme a idade. No levantamento de julho, 37% dos entrevistados de 18 a 24 anos se disseram contrários à proibição, contra 19% entre os maiores de 60 anos.
Desconfiança e percepção de danos aparecem nas pesquisas
Os levantamentos também registram desconfiança em relação às casas de apostas e preocupação com os efeitos do jogo. Pesquisa Ipespe para o Radar Febraban, com 2.000 entrevistados, mostrou que 85% desconfiam das empresas, 69% acreditam que apostar causa dependência e 47% tratam essa dependência como problema de saúde pública.
Outros 57% avaliam os sites como ruins ou péssimos. O mesmo instituto registrou que 67% consideram as bets uma epidemia instalada no país. Esses resultados ajudam a contextualizar o debate, mas não demonstram quais motivos levam cada entrevistado a apoiar a proibição.
Dados da Klavi, a partir de painel de open finance, estimam que 74,29 milhões de brasileiros já apostaram alguma vez, o equivalente a 34,8% da população. O Procon-SP registrou, em seu levantamento, aumento de 18% para 30% na fatia de apostadores que gastam mais de R$ 1.000 por mês entre 2025 e 2026.
Futebol concentra a discussão na amostra on-line
Em 17 de setembro, dia seguinte à reportagem que revelou a preparação da MP, o monitoramento analisou 1.060 menções ao mercado de apostas e identificou 52 opiniões únicas sobre o tema, com manifestações favoráveis e contrárias à proibição.
Nesse recorte, quase dois terços das opiniões discutem clube, camisa, patrocínio ou campeonato, e um quarto sequer cita a medida do governo. A presença desses assuntos mostra o peso do futebol na conversa coletada.
Por reunir publicações de um único dia e não constituir uma amostra representativa da população, o levantamento não permite comparar diretamente essa distribuição de posições com os resultados das pesquisas nacionais.
Clubes, especialistas e governo divergem sobre a medida
O levantamento do Aposta Legal mapeou 57 manifestações públicas sobre a medida, de fevereiro a 21 de setembro, classificadas por posição e por tom. Esse conjunto permite acompanhar os argumentos de quem se pronunciou, mas não medir o apoio de cada posição entre os brasileiros.
Entre os opositores à proibição estão representantes do futebol. Sete clubes e quatro federações assinaram um manifesto em 17 de setembro. “Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba”, diz a frase central.
Treze dos 20 clubes da Série A têm contrato com bets, que injetam mais de R$ 1 bilhão em patrocínios. As agremiações alegam que uma restrição ao mercado pode comprometer essas receitas.
Dois dias depois, especialistas em finanças do futebol contestaram a tese. Michel Fauze Mattar, da EY, afirmou que a saída das bets não seria o fim do futebol brasileiro, embora afetasse a liquidez no curto prazo. O economista Cesar Grafietti disse que as empresas permanecem se não forem obrigadas a sair e criticou dirigentes por não terem diversificado receitas.
Dentro do governo, também há posições diferentes sobre o alcance da medida. Lula defende uma intervenção mais dura. Em 17 de setembro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não havia decisão tomada. Técnicos da Secretaria de Prêmios e Apostas defendem fortalecer a regulação e alertam para o risco de migração de apostadores para operadores ilegais.
Restrições à publicidade têm apoio, mas propostas diferem
A publicidade aparece como um ponto de aproximação entre parte da opinião pública, parlamentares e representantes do setor. Essa aproximação, porém, reúne propostas de alcance diferente: proibir anúncios, limitar sua exibição a determinados horários e restringir formatos de divulgação não são medidas equivalentes.
Na pesquisa Ipespe, 66% apoiaram proibir o anúncio de apostas, no mesmo modelo aplicado ao cigarro. No Congresso, um projeto que restringe a publicidade no horário do futebol foi aprovado pelo Senado em 2025 e aguarda a Câmara.
Entre as entidades e empresas que se manifestaram, ANJL, ABC-Bet, Abert e Superbet colocaram restrições à publicidade na mesa. Isso não significa adesão a um mesmo modelo de proibição.
O tema já motivou medidas do Ministério da Fazenda sobre publicidade das bets durante a Copa do Mundo de 2026, acompanhadas pelo Aposta Legal.







