+18 Ministério da Fazenda adverte: aposta não é investimento.

Bets pagaram ao menos R$ 16 bilhões em tributos e outorgas

Atualizado: 25 Set 2026
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Lucas Arraz

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As casas de apostas que o governo Lula mandou sair do ar a partir de 6 de outubro pagaram ao menos R$ 16,1 bilhões em tributos e outorgas desde o início do mercado regulado, em janeiro de 2025. A estimativa é do Aposta Legal e vai até julho de 2026.

O cálculo aplica as alíquotas previstas em lei sobre a receita das empresas e soma o valor pago pelas licenças federais. Quando entram também os impostos sobre o lucro, o total pode chegar a R$ 23,8 bilhões.

Em um ano, a arrecadação com as bets se aproxima da gerada pela indústria do cigarro, que recolheu R$ 12,4 bilhões em tributos federais em 2025, segundo a Receita Federal. A proibição, anunciada nesta sexta-feira (25) por medida provisória, interrompe essa fonte de receita.

Como a conta foi feita

Você sabia?

O ponto de partida é a receita bruta de jogos das casas autorizadas, conhecida pela sigla em inglês GGR: o total apostado menos os prêmios pagos. É sobre ela que incide a principal cobrança do setor.

Pela estimativa do Aposta Legal, o GGR somou R$ 36,1 bilhões em 2025, valor próximo aos R$ 37 bilhões divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. De janeiro a julho de 2026, foram R$ 21,5 bilhões, 4,1% a mais que no mesmo período do ano anterior, com impulso da Copa do Mundo.

Sobre esse valor, as empresas pagam uma contribuição específica de 12%, que subiu para 13% em 2026 com a Lei Complementar 224, aprovada no fim de 2025. A lei prevê 14% em 2027 e 15% a partir de 2028.

As bets também recolhem PIS e Cofins, que somam 9,25%, e o ISS municipal, que varia de 2% a 5% conforme a cidade.

TributoAlíquota2025 (R$ bi)Jan. a jul. 2026 (R$ bi)Total (R$ bi)
Contribuição sobre o GGR12% em 2025 e 13% em 20264,342,797,13
PIS e Cofins9,25%3,341,995,33
ISS (municipal)2% a 5%0,72 a 1,810,43 a 1,071,15 a 2,88
Soma—8,40 a 9,495,21 a 5,8513,61 a 15,34

Fonte: estimativa do Aposta Legal com base no GGR das casas autorizadas

A essa conta somam-se as outorgas. Cada empresa pagou R$ 30 milhões pela autorização federal, válida por cinco anos e com direito a até três marcas. A lista de autorizadas acompanhada pelo Aposta Legal reúne 82 CNPJs, o que resulta em R$ 2,46 bilhões.

Três operadoras têm mais de três marcas e, pela regra, precisariam de uma segunda licença, o que elevaria o valor a R$ 2,55 bilhões.

Com as outorgas e o ISS na alíquota mínima, o total chega a R$ 16,1 bilhões. Com ISS de 5%, sobe para R$ 17,8 bilhões.

Com impostos sobre o lucro, conta passa de R$ 23 bilhões

A estimativa de R$ 16,1 bilhões deixa de fora o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e a CSLL, que somam 34% do lucro das empresas. Como os balanços das operadoras não são públicos, não é possível calcular esses valores com precisão.

Uma referência é a carga de 37% sobre a receita das bets apontada pela Folha de S.Paulo em junho, com base em dados da Receita Federal. Aplicada ao GGR estimado pelo Aposta Legal, ela resulta em R$ 13,4 bilhões em 2025 e R$ 7,9 bilhões de janeiro a julho de 2026. Com as outorgas, o total vai a R$ 23,8 bilhões.

Outras contas chegam a valores próximos. Levantamento do InfoMoney com dados da Receita aponta que as bets pagaram R$ 15,3 bilhões em tributos federais de janeiro de 2025 a agosto de 2026, incluindo impostos sobre o lucro, mas sem outorgas nem ISS.

Com as outorgas, o valor sobe para cerca de R$ 17,8 bilhões, um mês a mais de arrecadação e dentro da faixa estimada pelo Aposta Legal.

Já a série da Receita para a atividade de jogos de azar e apostas, que soma R$ 9,95 bilhões em 2025 e R$ 9,91 bilhões de janeiro a agosto de 2026, não permite isolar o que foi pago pelas bets, porque também inclui as loterias da Caixa, que seguem permitidas.

Perto do cigarro e da agricultura

Em seu primeiro ano completo, o setor de apostas passou a recolher valores comparáveis aos de atividades tradicionais da economia. A indústria do cigarro pagou R$ 12,4 bilhões em tributos federais em 2025, dos quais R$ 10,3 bilhões em IPI, segundo a Receita.

A agricultura recolhe cerca de R$ 1 bilhão por mês, segundo dados da Receita publicados pela Folha.

SetorTributos em 2025 (R$ bi)Fonte
Bets, com carga de 37%13,4Estimativa Aposta Legal
Cigarros12,4Receita Federal
Agriculturacerca de 12 (anualizado)Receita Federal, via Folha (R$ 1 bilhão por mês)
Bets, tributos federaiscerca de 9Receita Federal, via InfoMoney
Bets, só tributos sobre a receita8,4 a 9,5Estimativa Aposta Legal

No conjunto da arrecadação federal, o peso ainda é pequeno. Os R$ 9,95 bilhões de 2025 equivaleram a 0,34% dos R$ 2,886 trilhões arrecadados pela União no ano. De janeiro a agosto de 2026, a fatia subiu para 0,47%, com R$ 9,91 bilhões de um total de R$ 2,112 trilhões.

Clubes falam em "fim do futebol"

O futebol é o setor mais exposto à proibição. As bets pagaram cerca de R$ 1,03 bilhão em patrocínios a clubes da Série A em 2025, o equivalente a 7,2% das receitas desses times. Ao menos 13 dos 20 clubes da elite têm uma casa de apostas como patrocinadora máster.

O maior contrato é o do Flamengo com a Betano, de R$ 268,5 milhões por temporada até o fim de 2028, o maior patrocínio máster da história do futebol brasileiro.

Em 40 meses, o clube deve receber cerca de R$ 895 milhões, mais do que o Flamengo obtém por ano com direitos de TV do Brasileirão, segundo o Aposta Legal. As apostas respondem por 12,85% das receitas do clube, segundo o portal Vavel.

O acordo também ajuda a dimensionar o peso dos tributos. A Betano concentrou 22,9% dos acessos às casas autorizadas em 2025. Se sua fatia no GGR for semelhante, a empresa faturou cerca de R$ 8,3 bilhões e recolheu perto de R$ 1,75 bilhão em contribuição sobre o GGR e PIS/Cofins no ano, mais de seis vezes o valor anual pago ao Flamengo.

Em nota divulgada nesta sexta, o Flamengo usou justamente o argumento fiscal para criticar a medida. "O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar", afirmou o clube.

A Betano disse ao Lance! que "monitora com muita preocupação a discussão atual no país e tomará decisões no momento apropriado". Segundo o jornal, a empresa já sinalizou informalmente ao clube a possibilidade de rescisão.

A reação começou antes do anúncio. Em 17 de setembro, as federações paulista e carioca e 11 clubes, entre eles Flamengo, Palmeiras, Corinthians e São Paulo, divulgaram o manifesto "O fim do futebol brasileiro".

"Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba", diz o texto. Um dia antes da MP, Lula respondeu: "Os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro".

O que a União deixa de arrecadar

Com a proibição, o governo abre mão de uma receita que vinha crescendo. Em 2026, a contribuição sobre o GGR e o PIS/Cofins renderam, em média, R$ 683 milhões por mês, pela estimativa do Aposta Legal. Com os impostos sobre o lucro, o InfoMoney calcula perda de cerca de R$ 800 milhões mensais para a União.

O próprio governo contava com mais dinheiro do setor neste ano. A alta da alíquota de 12% para 13% deveria render cerca de R$ 850 milhões extras em 2026, segundo o governo, e a lei aprovada no fim de 2025 previa novos aumentos até 2028.

As outorgas também entram na disputa. Operadoras ameaçam ir à Justiça para reaver os R$ 30 milhões pagos pelas licenças, que valiam por cinco anos. Quando os sites saírem do ar, as empresas terão operado cerca de 21 dos 60 meses previstos.

Bets pagaram ao menos R$ 16 bilhões em tributos e outorgas