Bets pagaram ao menos R$ 16 bilhões em tributos e outorgas
As casas de apostas que o governo Lula mandou sair do ar a partir de 6 de outubro pagaram ao menos R$ 16,1 bilhões em tributos e outorgas desde o início do mercado regulado, em janeiro de 2025. A estimativa é do Aposta Legal e vai até julho de 2026.
O cálculo aplica as alíquotas previstas em lei sobre a receita das empresas e soma o valor pago pelas licenças federais. Quando entram também os impostos sobre o lucro, o total pode chegar a R$ 23,8 bilhões.
Em um ano, a arrecadação com as bets se aproxima da gerada pela indústria do cigarro, que recolheu R$ 12,4 bilhões em tributos federais em 2025, segundo a Receita Federal. A proibição, anunciada nesta sexta-feira (25) por medida provisória, interrompe essa fonte de receita.
Como a conta foi feita
O ponto de partida é a receita bruta de jogos das casas autorizadas, conhecida pela sigla em inglês GGR: o total apostado menos os prêmios pagos. É sobre ela que incide a principal cobrança do setor.
Pela estimativa do Aposta Legal, o GGR somou R$ 36,1 bilhões em 2025, valor próximo aos R$ 37 bilhões divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. De janeiro a julho de 2026, foram R$ 21,5 bilhões, 4,1% a mais que no mesmo período do ano anterior, com impulso da Copa do Mundo.
Sobre esse valor, as empresas pagam uma contribuição específica de 12%, que subiu para 13% em 2026 com a Lei Complementar 224, aprovada no fim de 2025. A lei prevê 14% em 2027 e 15% a partir de 2028.
As bets também recolhem PIS e Cofins, que somam 9,25%, e o ISS municipal, que varia de 2% a 5% conforme a cidade.
| Tributo | Alíquota | 2025 (R$ bi) | Jan. a jul. 2026 (R$ bi) | Total (R$ bi) |
|---|---|---|---|---|
| Contribuição sobre o GGR | 12% em 2025 e 13% em 2026 | 4,34 | 2,79 | 7,13 |
| PIS e Cofins | 9,25% | 3,34 | 1,99 | 5,33 |
| ISS (municipal) | 2% a 5% | 0,72 a 1,81 | 0,43 a 1,07 | 1,15 a 2,88 |
| Soma | — | 8,40 a 9,49 | 5,21 a 5,85 | 13,61 a 15,34 |
Fonte: estimativa do Aposta Legal com base no GGR das casas autorizadas
A essa conta somam-se as outorgas. Cada empresa pagou R$ 30 milhões pela autorização federal, válida por cinco anos e com direito a até três marcas. A lista de autorizadas acompanhada pelo Aposta Legal reúne 82 CNPJs, o que resulta em R$ 2,46 bilhões.
Três operadoras têm mais de três marcas e, pela regra, precisariam de uma segunda licença, o que elevaria o valor a R$ 2,55 bilhões.
Com as outorgas e o ISS na alíquota mínima, o total chega a R$ 16,1 bilhões. Com ISS de 5%, sobe para R$ 17,8 bilhões.
Com impostos sobre o lucro, conta passa de R$ 23 bilhões
A estimativa de R$ 16,1 bilhões deixa de fora o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e a CSLL, que somam 34% do lucro das empresas. Como os balanços das operadoras não são públicos, não é possível calcular esses valores com precisão.
Uma referência é a carga de 37% sobre a receita das bets apontada pela Folha de S.Paulo em junho, com base em dados da Receita Federal. Aplicada ao GGR estimado pelo Aposta Legal, ela resulta em R$ 13,4 bilhões em 2025 e R$ 7,9 bilhões de janeiro a julho de 2026. Com as outorgas, o total vai a R$ 23,8 bilhões.
Outras contas chegam a valores próximos. Levantamento do InfoMoney com dados da Receita aponta que as bets pagaram R$ 15,3 bilhões em tributos federais de janeiro de 2025 a agosto de 2026, incluindo impostos sobre o lucro, mas sem outorgas nem ISS.
Com as outorgas, o valor sobe para cerca de R$ 17,8 bilhões, um mês a mais de arrecadação e dentro da faixa estimada pelo Aposta Legal.
Já a série da Receita para a atividade de jogos de azar e apostas, que soma R$ 9,95 bilhões em 2025 e R$ 9,91 bilhões de janeiro a agosto de 2026, não permite isolar o que foi pago pelas bets, porque também inclui as loterias da Caixa, que seguem permitidas.
Perto do cigarro e da agricultura
Em seu primeiro ano completo, o setor de apostas passou a recolher valores comparáveis aos de atividades tradicionais da economia. A indústria do cigarro pagou R$ 12,4 bilhões em tributos federais em 2025, dos quais R$ 10,3 bilhões em IPI, segundo a Receita.
A agricultura recolhe cerca de R$ 1 bilhão por mês, segundo dados da Receita publicados pela Folha.
| Setor | Tributos em 2025 (R$ bi) | Fonte |
|---|---|---|
| Bets, com carga de 37% | 13,4 | Estimativa Aposta Legal |
| Cigarros | 12,4 | Receita Federal |
| Agricultura | cerca de 12 (anualizado) | Receita Federal, via Folha (R$ 1 bilhão por mês) |
| Bets, tributos federais | cerca de 9 | Receita Federal, via InfoMoney |
| Bets, só tributos sobre a receita | 8,4 a 9,5 | Estimativa Aposta Legal |
No conjunto da arrecadação federal, o peso ainda é pequeno. Os R$ 9,95 bilhões de 2025 equivaleram a 0,34% dos R$ 2,886 trilhões arrecadados pela União no ano. De janeiro a agosto de 2026, a fatia subiu para 0,47%, com R$ 9,91 bilhões de um total de R$ 2,112 trilhões.
Clubes falam em "fim do futebol"
O futebol é o setor mais exposto à proibição. As bets pagaram cerca de R$ 1,03 bilhão em patrocínios a clubes da Série A em 2025, o equivalente a 7,2% das receitas desses times. Ao menos 13 dos 20 clubes da elite têm uma casa de apostas como patrocinadora máster.
O maior contrato é o do Flamengo com a Betano, de R$ 268,5 milhões por temporada até o fim de 2028, o maior patrocínio máster da história do futebol brasileiro.
Em 40 meses, o clube deve receber cerca de R$ 895 milhões, mais do que o Flamengo obtém por ano com direitos de TV do Brasileirão, segundo o Aposta Legal. As apostas respondem por 12,85% das receitas do clube, segundo o portal Vavel.
O acordo também ajuda a dimensionar o peso dos tributos. A Betano concentrou 22,9% dos acessos às casas autorizadas em 2025. Se sua fatia no GGR for semelhante, a empresa faturou cerca de R$ 8,3 bilhões e recolheu perto de R$ 1,75 bilhão em contribuição sobre o GGR e PIS/Cofins no ano, mais de seis vezes o valor anual pago ao Flamengo.
Em nota divulgada nesta sexta, o Flamengo usou justamente o argumento fiscal para criticar a medida. "O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar", afirmou o clube.
A Betano disse ao Lance! que "monitora com muita preocupação a discussão atual no país e tomará decisões no momento apropriado". Segundo o jornal, a empresa já sinalizou informalmente ao clube a possibilidade de rescisão.
A reação começou antes do anúncio. Em 17 de setembro, as federações paulista e carioca e 11 clubes, entre eles Flamengo, Palmeiras, Corinthians e São Paulo, divulgaram o manifesto "O fim do futebol brasileiro".
"Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba", diz o texto. Um dia antes da MP, Lula respondeu: "Os times que aprendam a viver sem lavagem de dinheiro".
O que a União deixa de arrecadar
Com a proibição, o governo abre mão de uma receita que vinha crescendo. Em 2026, a contribuição sobre o GGR e o PIS/Cofins renderam, em média, R$ 683 milhões por mês, pela estimativa do Aposta Legal. Com os impostos sobre o lucro, o InfoMoney calcula perda de cerca de R$ 800 milhões mensais para a União.
O próprio governo contava com mais dinheiro do setor neste ano. A alta da alíquota de 12% para 13% deveria render cerca de R$ 850 milhões extras em 2026, segundo o governo, e a lei aprovada no fim de 2025 previa novos aumentos até 2028.
As outorgas também entram na disputa. Operadoras ameaçam ir à Justiça para reaver os R$ 30 milhões pagos pelas licenças, que valiam por cinco anos. Quando os sites saírem do ar, as empresas terão operado cerca de 21 dos 60 meses previstos.
Uma devolução proporcional ao período não usado custaria cerca de R$ 1,6 bilhão à União; a devolução integral, R$ 2,46 bilhões.







